Artes | Bruno Pacheco: Pintura como contraponto

Prémio de Artes Plásticas União Latina, em 2004, com mais de 40 exposições, mormente em Londres, onde estudou e vive, Bruno Pacheco, 36 anos, é um dos actuais artistas portugueses de referência e expõe, até 11 de Março, na galeria Chiado 8, em Lisboa. A exposição chama-se Uma história de amor.


"A Literatura é uma fonte de inspiração tal como ir à praia", diz Bruno Pacheco. É que para ele, não é possível hierarquizar aquilo que influencia o seu processo criativo, nem tampouco estabelecer relações directas entre essas fontes e a sua pintura. Tudo lhe sugere "coisas", e essa experiência do mundo há de condicionar o seu trabalho de forma mais ou menos consciente. A arte surge, assim, não como "mimetização" da vida, mas antes como uma manifestação da qual a vida é uma necessária "condição".
Não obstante, a Literatura tem um papel especial na sua vida. É "um espaço para pensar, que nos questiona e leva a ver as coisas de uma forma mais lenta". "Um lugar de confronto, tal como a Pintura", acentua Bruno Pacheco, que agora expõe na galeria Chiado 8 - Arte Contemporânea, em Lisboa, e em Outubro estará de volta com outra mostra, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. A actual exposição intitula-se Uma história de amor, título que remete para um fragmento do romance O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, transcrito no catálogo por Bruno Marchand, o comissário da exposição: "[...] existe no mundo um estado a que não podemos aceder, mas que as coisas aqui e ali por vezes deixam entrever quando nós próprios nos encontramos num estado de especial excitação. Só nesse estado nos apercebemos de que as coisas 'são feitas de amor'. E só nele percebemos também o que isso quer dizer. E só esse estado é então real, e nós poderemos ser verdadeiros".
Sem querer impor um sentido único à referência, o artista adianta uma das leituras possíveis: a correspondência metafórica entre o amor e a criação artística, enquanto fenómenos de continuidade/descontinuidade. No sentido em que ambos se caracterizam por "um processo contínuo, permanente e laborioso através do qual só é possível chegar a momentos de intensidade". "Numa tentativa de desenhar um círculo perfeito, há um objetivo, um ideal, mas que é interrompido pela incapacidade humana de o executar", concretiza. Daí que a pintura implique, antes de mais, uma relação de "aspiração", uma tentativa permanente de criar uma linguagem.
Porém, Uma história de amor não é mais do que um título, um "enquadramento" para as dez obras que apresenta na exposição, e que devem falar por si, não estando subordinadas a "um nome, uma palavra ou uma ideia". Nem ao seu autor. Pois à medida que a visita guiada avança, percebemos que Bruno Pacheco não nos vai 'explicar' o significado das obras, mas apenas levantar hipóteses e chamar-nos a atenção para alguns aspectos.
Na primeira sala, somos confrontados com The Possible Ball (2009), um objeto esférico com cerca de 180 centímetros de diâmetro, revestido por retalhos de tela virados do avesso, e duas pinturas, representando um casal de nudistas numa paisagem ao ar livre, Nudists.com (2009), e um par de naves espaciais estacionado num quintal, Revelation/Shelter (2010). The Possible Ball dá continuidade a uma das vertentes do seu trabalho, que consiste na construção de peças tridimensionais a partir de materiais recuperados do estúdio, como godés e baldes de tinta. Um processo de questionamento que está intimamente ligado à "prática de atelier", explica. Trata-se de reutilizar objetos "de apoio", que não executam diretamente a pintura, dando-lhes uma nova função, a de peça artística. Com efeito, aquela bola pode permitir várias alusões, desde uma "bola de trapos", pelas diferentes texturas de tela e manchas de tinta, um "globo", onde através dos vestígios podemos procurar determinadas formas, ou até uma "ideia de representação de um círculo perfeito", constituindo-se como uma esfera imperfeita e, portanto, a bola possível. Já diante das pinturas, o artista lança apenas a pergunta: "Qual a relação entre os nudistas, as naves e a bola?".
A pintura é, de resto, a base do seu trabalho. Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, com bacharelato e mestrado em Belas-Artes pelo Goldsmith College, em Londres, onde actualmente reside, Bruno Pacheco encontrou naquele meio a sua "forma de entendimento do mundo". E, embora desenvolva uma obra com suportes diversos, desde o vídeo aos já referidos objectos tridimensionais, a pintura é aquele que mais lhe interessa explorar.
Pintura: um processo
A prática pictórica de Bruno Pacheco tem-se caracterizado pelo recurso a fotografias como ponto de partida, e as obras em exposição comprovam-no. Mas não lhe interessa uma representação fidedigna, servindo a fotografia apenas como "um modelo". "Por exemplo, quero pintar uma baleia, e interessa-me que esta seja passível de ser vista como tal, e não como um cartoon, então, recorro à fotografia", explica. A partir daí, as imagens passam por um processo de alteração das suas características formais (enquadramento, luz, cor, etc.), perdendo de vista o seu referente fotográfico. Afinal, o que está em causa é a problematização da pintura, nomeadamente, a forma como o artista traz outros elementos que não estão na origem da imagem, ou realça aspetos que a própria não evidencia.
Na segunda sala, encontramos um conjunto de trabalhos exemplar desse jogo de afastamento em relação à fotografia, em prol da capacidade da pintura de editar o seu campo visual. São sete dispositivos que se assemelham aos expositores que podemos encontrar, por exemplo, em lojas de posters, R.O.Y.G.B.I.V. (2010/2011), e uma serigrafia, que apresenta um arranjo de letras aparentemente arbitrário, ROYGBIV (2010/2011). Os expositores com pinturas, fixados na parede, remetem-nos, desde logo, para a ideia de um livro. E é esse o objectivo final da obra: "A paginação e a capa [a serigrafia] já estão feitas, só falta uma instituição que o produza", revela Bruno Pacheco.
No entanto, o potencial narrativo dessas pinturas não é "directo", nem "contínuo". Assim como é preciso procurar o sentido daquela 'sopa de letras' (sim, está lá uma frase), o espectador é levado a reflectir sobre a lógica "inerente" ao conjunto de papéis. Em todo o caso, como escreve Bruno Marchand no catálogo da exposição, "composta por intervalos, por espaços negativos, mais do que por momentos conclusivos, esta será sempre uma narrativa elíptica (...)". Pois para Bruno Pacheco a pintura, como toda a arte, é o que não se diz, o que está por detrás daquilo que se vê. 
Já na última sala, deparamo-nos com cinco pinturas que representam caixas de papel, Folding Box (2010). Interessou-lhe "explorar a forma como a caixa se desdobra, e não como se fecha, ou seja, a impermanência da própria caixa, que sendo duas, pode ser só uma". Um exercício onde o artista ensaia a variação desse objecto, e que parece distinguir-se das outras salas, quer pela sobriedade formal quer por um certo esvaziamento emocional.
Há, no entanto, um mesmo fôlego que atravessa a exposição, do início ao fim. Um constante movimento de atenção, uma permanente procura de sentidos de que a pintura é, simultaneamente, ponto de partida e de chegada. A ideia de "processo" revela-se, assim, fundamental no trabalho de Bruno Pacheco, no qual a construção de imagens acontece lentamente, é pensada e repensada, feita e refeita. É esse lado "anacrónico" da pintura que lhe importa, face ao actual mundo das imagens - congestionado, pouco pertinente, difuso, de produção imediata. Não como crítica, antes como um "contraponto".