A CULTURA DA ÁGORA – MÓDULO 1


A CULTURA DA ÁGORA – MÓDULO 1  (24 AULAS)

Em busca da harmonia e da proporção
Sem ter alcançado o elevado estatuto que a filosofia, o teatro, a poesia e a música tiveram entre os Gregos antigos, as artes visuais ocuparam lugar importante no seu sistema de vida e são, hoje, um dos maiores testemunhos do refinamento da civilização helénica e, também um dos seus mais importantes e duradouros legados à posteridade.
Conhecida, inicialmente, sobretudo pelas referências e cópias que dela fizeram os Romanos, a Arte Grega maravilhou os povos europeus, desde o Renascimento pelo carácter racional e quase científico dos seus princípios estéticos: pelo rigor e domínios técnicos que aplicou ao tratamento dos materiais de suporte; e, principalmente, pela clareza, harmonia e ritmo das formas criadas que em tudo seguiam “a medida do Homem”, abandonando a tendência para a monumentalidade das civilizações anteriores.

A arquitectura grega – Os Templos


 A arquitectura grega inclui vários tipos de construções (casas de habitação, teatros, palestras, ginásios, pórticos…), mas teve a sua versão mais perfeita nos templos, morada dos deuses e símbolos das pólis. Foi na construção dos templos que se estabeleceram os princípios construtivos, técnicos e estéticos, que serviram de modelo para os restantes edifícios.
Estes princípios nasceram de um longo processo de identificação e maturação dos problemas da edificação. Essa maturação, que se iniciou logo na época arcaica, fez-se em permanente ligação com a matemática e a geometria, o que demonstra o espírito racional e científico dos Gregos na busca das soluções ideais (as universais e únicas) para cada um desses problemas. Dessa busca nasceram as primeiras noções de medida, proporção, composição e ritmo pelas quais qualquer concretização plástica se devia reger.



Foi desta dialéctica entre a prática e a teoria que se estabeleceram as ordens arquitectónicas, conjuntos de regras que definiam as medidas e as relações de proporção entre todos os elementos construtivos; a forma desses elementos; e a decoração que comportavam (relevos, estatuária e pinturas), fazendo da arquitectura um exercício racional e científico (já que baseado em rigorosos cálculos de Mecânica, Física, Geometria e Matemática), mas submetido a critérios estéticos de grande sensibilidade e elegância.
Na época clássica, os Gregos construíam os seus templos em pedra, geralmente mármore, seguindo o sistema trilítico, e obedecendo a uma planta-tipo rectangular e períptera, cuja origem resultou da evolução do mégaron ou sala do trono dos palácios micénicos.
Em volume, as formas e dimensões do templo variavam de acordo com as regras de duas ordens arquitectónicas: a ordem dórica e a ordem jónica.



A ordem dórica é a mais antiga, tendo tido a sua origem no continente grego (provavelmente no Peloponeso), durante a época arcaica, cerca de 600 a.C. Os templos construídos nesta ordem possuem proporções robustas e uma decoração sóbria, principalmente geométrica, o que lhes confere um aspecto maciço e pesado que tem sido associado ao espírito masculino e guerreiro dos Dórios, o povo que a inventou.
Contudo, a ordem, simetria e equilíbrio das suas formas provocam-nos, muitas vezes, uma sensação ilusória de simplicidade. É que, estudando meticulosamente estes templos, os historiadores actuais descobriram que, por serem perípteros, estavam sujeitos a determinadas deformações ópticas que desvirtuavam a sua perfeição geométrica. Conhecedores dessas deformações, os arquitectos gregos souberam corrigi-las matematicamente, de modo a que o observador distinga o templo como absolutamente regular.
Nascida na época arcaica, a ordem dórica sofreu uma significativa evolução na passagem para a época clássica: as proporções adelgaçaram-se, o capitel tornou-se mais geométrico e as métopas, anteriormente lisas, adquiriram decoração escultórica. Estas alterações conferiram maior elegância aos templos desta ordem, que tem o seu expoente na construção do Parténon, em Atenas, no século V a.C.
Outros templos dóricos são: o templo de Hera, em Olímpia; o de Apolo, em corinto; o de Posídon, datado de meados do século V a. C; e o de Ceres, na Magna Grécia.



A ordem Jónica de formação um pouco mais recente (meados do século VI a.C.), desenvolveu-se, principalmente, na Ática e na Jónia (província da Ásia Menor). É de proporções mais esbeltas (colunas mais finas e mais espaçadas) e possui maior decoração, patente, sobretudo, no capitel de grandes volutas enroladas e no friso contínuo do seu entablamento, com relevos historiados. Por estas razões, e geralmente associada ao espírito feminino.
Inicialmente, a ordem jónica foi aplicada a edifícios pequenos, de estrutura simples, como o templo de Atena Niké, na acrópole da cidade de Atenas; no entanto, aparece igualmente em obras mais complexas como o Templo Erectéion, da mesma acrópole.
A ordem jónica sofreu, com o tempo, algumas variantes, por vezes designadas como novas ordens.  As primeiras surgiram quando as colunas foram substituídas por esculturas de mulheres (as cariátides) ou de homens (os atlantes) que suportam,  sobre a cabeça e/ou os ombros, o peso do entablamento e cobertura.
Contudo, a variante jónica mais conhecida é a ordem coríntia, criada nos finais do século V a.C. por Calímaco, da cidade de Corinto. A sua especificidade reside numa decoração mais rica, visível no capitel, no entablamento e no frontão.



A ordem coríntia foi usada, pelos Gregos de forma parcimoniosa e encarna o espírito ornamentalista do século IV a. C. No entanto, teve grande expansão no período helenístico e foi a mais usada pela arquitectura romana, que a divulgou por todo o império.
Na Grécia, podemos observar a ordem coríntia no Templo de Zeus Olímpico e no Monumento Corágico a Lisícrates, datado do século IV a. C., ambos situados em Atenas.
A decoração dos templos gregos, qualquer que fosse a sua ordem arquitectónica, recorria sempre á escultura (relevos e estatuária), que ocupava lugares próprios, e á pintura, que preenchia parte das paredes interiores e cobria todas as estruturas arquitectónicas e esculpidas, atribuindo-lhes um invulgar colorido.
Destinados a serem admirados, sobretudo do lado de fora, os templos gregos apresentam-se como modelos de equilíbrio, proporção e clareza formal pois são construídos a partir de apurados critérios racionais e científicos, os mesmos que caracterizam o pensamento e a actuação dos gregos na filosofia, na política, e no teatro. Embora dedicados aos deuses, eles reflectem, principalmente, a mentalidade antropológica e racional do homem-cidadão da civilização helénica.

A acrópole como síntese da arquitectura grega

A destruição causada pelas segundas Guerras Persas nos anos de 489-479 a. C., em Atenas, foi o pretexto, durante a magistratura de Péricles, para uma grandiosa reforma urbana que privilegiou a acrópole da cidade.
Encomendado por Péricles em 447 a. C., o plano de reconstrução da acrópole foi superintendido pelo escultor Fídias que, para tal, se rodeou de arquitectos, escultores, pintores e outros artistas. Como resultado, esta fortaleza rochosa e alcantilada rodeou-se de novas muralhas e encheu-se de novas e coloridas construções unidas por relvados espaçosos.
Entre estas novas construções contam-se os templos do Parténon (o primeiro a ser construído e aquele que, pelas suas dimensões e localização central, preside e domina o recinto sagrado da acrópole), o do Erectéion e o de Atena Niké, vários santuários (com o de Zeus Pólios), os tesouros dos deuses estátuas grandiosas em mármore e bronze, colocadas em pedestais (como a de Atena Promacos, que segura na mão uma lança cuja a ponta reluzente serviu de guia aos navios que entrvam na barra do Pireu).
No entanto seu conjunto, estes novos monumentos sintetizam todo o repertório formal e das ordens da arquitectura grega e comprovam os apurados critérios formais, métricos e estéticos que presidiram à sua concepção e construção técnica.

A casa grega. 

A Grécia berço do urbanismo ocidental


A Natureza e o Homem foram a medida da cidade grega, onde a vida quotidiana decorria maioritariamente ao ar livre.
Desde a época arcaica até à época clássica, as pólis gregas constituíam pequenos amontoados populacionais de malha irregular e incaracterística, gerada de modo não planeado e sem ideia de conjunto. A cidade integrava-se no meio ambiental natural pois muros, ruas e edifícios não faziam desaparecer os acidentes do terreno, apenas os nivelavam numa proporção respeitosa; até os edifícios em ruína eram conservados ou incorporados noutros novos.
Assim, as zonas habitacionais das cidades gregas possuíram uma aspecto labiríntico e desordenado, com ruas estreitas e não pavimentadas, sem diferenciação social, nem nas casas de habitação.
Estas, pelo puco que hoje se conhece, eram construídas em madeira ou tijolo e cascalho misturados com argamassa. Deviam inserir-se na tradição mediterrânia da casa que se desenvolve em torno de um pátio central descoberto,  por vezes provido de um pórtico, e quase sempre virado para sul para uma maios insolarização. Os compartimentos internos destribuíam-se em redor do pátio, sem axialidade ou simetria.
As casas podiam possuir vários andares que se adaptavam, de modo irregular, aos declives do terreno. Assim, o seu perímetro externo era, por vezes, também irregular. A decoração parece ter sido de grande sobriedade e austeridade.
Com desenvolvimento da democracia, no começo da época clássica, aparecem nas cidades-estado novos elementos urbanísticos que denunciam uma participação maior do povo nos assuntos da comunidade. Para além dos templos, surgem, em torno da ágora, vários edifícios dedicados à vida pública e ao exercício da democracia: o ecclesiasteron (sala para as assembleias públicas), o bouleuterion (sala das assembleias municipais), o prytaneion (sala da câmara municipal) e a stoa, espécie de pórtico comprido destinado ao comércio e ao convívio social. Estes equipamentos político-administrativo e económicos fizeram da ágora o verdadeiro centro cívico das cidades gregas.
Uma outra inovação diz respeito ao aparecimento, dentro da cidade, de construções dedicadas ao lazer e à diversão: os teatros ao ar livre e os estádios.
Esta evolução prova que a cidade grega da época clássica havia deixado de ser o amontoado de casas humildes dominado pelo palácio-templo, ou palácio-fortaleza, de um rei divinizado ou temido, para se converter numa estrutura mais complexa onde dominavam os elementos destinados a uma utilização geral.
Contudo, foi só com o Hipódam (c. 500 a. C.) da cidade jónia de Mileto (na Ásia menor) que haveria de surgir, no pensamento grego, uma teoria racional e lógica da organização das cidades, a qual ele mesmo teve oportunidade de pôr em prática. Por isso, Hipódamo é hoje considerado o primeiro urbanista com critério rigoroso que o mundo conheceu.
A sua teoria nasceu do plano da reconstrução de Mileto, efectuada no século V a. C. Nesse plano a cidade foi rasgado por avenidas longitudinais que se cruzavam em ângulo recto com as ruas transversais, formando quarteirões regulares, organizado por áreas diferenciadas segundo a função/profissão. Os quarteirões – formados, cada um, por duas filas de cinco casas de configuração de áreas semelhantes - constituíam o módulo, a partir do qual se desenvolvia todo o plano urbano. As cidades adquiriam, assim, uma malha em rectícula ou quadrícula, cuja invenção tem sido atribuída a Hipódamo, embora ela existisse já nas civilizações indostânicas, egípcias e mesopotâmicas.
Reconhecimento pela funcionalidade, o plano hipodamiano foi aplicado na reconstrução de velhas cidades gregas (como Atenas no porto de Pireu, Rodes e Prienne, na Ásia Menor), mas sobretudo em cidades criadas de raiz como foram as colónias geradas pelo expansionismo dos Gregos na bacia do Mediterrâneo.
A maior afirmação de urbanismo hipodamiano fez-se, contudo, no período helenístico, no qual, graças às conquistas de Alexandre Magno, a cultura grega pôde expandir-se por todo o Próximo e Médio Oriente, dando origem à criação de novas cidades que aparecem desde a Cirenaica até ao Indo. Assim se impôs uma nova estética urbana que os Romanos haveriam de adoptar.


A escultura grega

O Homem em todas as suas dimensões

É na escultura que, de forma imediata e lógica, nos apercebemos da verdade da frase de Protágoras que dizia: “O Homem é a medida de todas as coisas”. Com efeito, para o Grego, a escultura glorifica, acima de tudo. O Homem, ainda que retrate heróis, atletas e deuses, já que até este se concebiam à imagem e semelhança dos humanos para os quais eram modelos ideais.
Deste modo, a escultura grega foi concebida para caracterizar noções particulares de beleza e harmonia, tendo como “papel primordial pôr em evidência a ideia de que a arte conseguia pela habilidade da representação exacta das aparências visìveis”. Usou, portanto, a mimesis ou a ilusionismo da representação, defendido por Aristóteles e Platão, chegando ao ponto  de colorir totalmente as estátuas e relevos para atingir um realismo de grande vivacidade.
Simultaneamente realista e idealista, a escultura grega esteve estreitamente ligada à arquitectura, onde ocupava locais próprios e onde exercia funções religiosas, políticas, honoríficas e funerárias, tanto quanto ornamentais.
O seu profundo humanismo manifestou-se, principalmente, por meio da medida e do tema forma, pois toda a temática da escultura grega, à excepção do centauro e do fauno, é exclusivamente humana.

A herança pré-helénica e a escultura arcaica

Tal como na arquitectura, a génese da escultura grega encontra-se no longo período que vai do século IX ao V a. C., cuja última etapa (a partir do século VII) é designada por período arcaico.
A estatuária deste período, realizada primeiro em madeira e depois em pedra, denota diversas influências, das quais se destacam a estética da estatuária assíria e egípcia, algumas sobrevivências creto-micénias e a arte oriental.
Da produção grega arcaica chegaram até nós dois tipos básicos:



Os Kouroi, presentação de jovens nus que, segundo se supõe, simbolizavam deuses (talvez Apolo, deus da juventudade e beleza) ou atletas-heróis. Foi nestas estátuas que os Gregos ensaiaram as primeiras representações anatómicas e o movimento corporal;
as Korai, representação de raparigas vestidas com longas túnicas pregueadas e pintadas de cores luminosas. Eram, talvez,  jovens virgens usadas na cerimónias rituais.



Kouroi e Korai foram, inicialmente, estátuas rígidas de corpos hirtos e algo esquematizados com rostos simétricos esboçando meios-sorrisos e cabelos e barbas simplificados. Gradualmente, foram adquirindo mais flexibilidade, movimento e expressão fácil.

O relevo enquadrava-se na arquitectura, onde ocupava lugares próprios a ele destinados pelas “ordens” : na ordem dórica distribui-se pelas métopas e tímpanos dos frontões, enquanto que na ordem jónica, para além dos tímpanos, é aplicado nos frisos contínuos.
O relevo possuiu, desde este período, duas funções essenciais: a de “contar uma história mágica” , geralmente a que comemora o acto que justifica a edificação do templo; e uma outra, mais prática, que é a de preencher e decorar o espaço arquitectónico, sujeitando-se às suas formas e dimensões.
Os relevos arcaicos foram feitos em terracota e pintados com cores vibrantes. Só na passagem para a época clássica passaram a ser executados em mármore.
Estética e estilisticamente, os relevos possuem características idênticas às da estatuária, tendo as figuras uma anatomia esquemática e movimentos algo rígidos. Os rostos são orientalizantes, com olhos oblíquos, maçãs salientes e os caracóis dos cabelos geometrizados.

Do estilo severo aos primeiros 
clássicos

o Auriga de Delfos e Posídon
A transição para a época clássica fez-se no primeiro quartel do século V a. C., com duas obras realizadas em bronze: o Auriga de Delfos e Posídon. Dotadas de maior pormenorização anatómica e rigor técnico, mas também de grande monumentalidade e rigidez expressiva, estas duas obras caracterizam o chamado estilo severo.
Contudo, foi no século V a.C. – época clássica – que a escultura atingiu o auge da beleza e da perfeição,  quer pela concepção plena da forma, imitada da Natureza.
A imitação da Natureza (isto é, da forma real, visível) não se fez, todavia, com base na cópia exacta dos exemplos fornecidos por esta, mas partiu de uma selecção que representasse os modelos ideais, as formas mais perfeitas.
Essa selecção, que aliou a observação do real a rigorosos estudos de anatomia e de geometria, culminou no estabelecimento dos cânones, conjunto de regras de proporção métrica entre as diferentes partes do corpo humano, de modo a obter um todo harmonioso e perfeito – uma beleza ideal, nascida da reflexão e da racionalização.

O primeiro cânone surgiu com o escultor ateniense Policletoque redigiu as conclusões da sua pesquisar formal num Manuel de escultura a que deu justamente o título de Cânone. A obra O doríforo foi a primeira onde o concretizou e com tanto sucesso que as suas regras foram seguidas por outros escultores por mais de um século.


O discóbolo de Miron
Desde modo, ao realismo técnico aliou-se o idealismo racional das formas, características patentes, por exemplo, em Míron e na sua obra O Discóbolo, onde ao dinamismo das formas anatómicas se associou o idealismo do rosto do atleta (já perdido no original) que, em esforço de concentração, se apresenta sereno, calmo e imperturbável .
Mais foi com Fídias – o artista mais genial de todo o século V a.C – que a escultura grega atingiu a absoluta perfeição. Foi este o autor dos relevos do Parténon, nomeadamente os de A Procissão das Panateneias,  e são estes relevos,  juntamente com os do Templo de Atena Niké e com algumas, poucas, peças de estatuária, que testemunham o génio escultórico do povo grego, pois a maioria das obras de escultura que conhecemos hoje deste período é construída por cópias helenísticas e romanas.
Nas obras de Fídias ressaltam a perfeição anatómica, a robustez e a serenidade, a força e a majestade que atribuíram à escultura clássica grega o carácter idealista e divinizado que hoje lhe reconhecemos e que definimos, muitas vezes, pela expressão “calma olímpica”.

Da 2.ª idade clássica à escultura helenística

No século IV a. C., a escultura grega conheceu novos desenvolvimentos que contrariam a grandeza severa e impessoal do século V. Relevos e estátuas tornam-se mais naturalistas e expressivos, trabalhados ao estilo de cada autor; aparece igualmente o no feminino, nunca até aí inteiramente revelado. Assim, a escultura adquiriu um carácter mais sensível e sensual, mais gracioso e sedutor.

Exemplos destas alterações encontram-se no trabalho do escultor Scopas, cujas obras exibem uma poderosa expressividade pela tensão dos corpos, em movimento contorsionado, e pelos rostos .
Praxíteles, outro artista deste período, executou corpos esbeltos e efeminados, como o do seu Hermes, e foi o primeiro a assumir a nudez feminina na estatuária.
Lísipo, por seu turno, estabeleceu um novo cânone cujas proporções criaram um tipo de atleta mais esbelto e delgado, concretizado em Apoxiomeno; coube-lhe, também, introduzir na escultura a verdadeira noção de vulto redondo, assumindo a multifacialidade do observador face às suas obras .
Nos séculos III, II e I a. C., o período helenístico, a escultura grega fez uma nova evolução. O “realismo idealista” do século V fora substituindo, no século IV, pelo naturalismo que foi progressivamente evoluindo, neste período, para um “realismo expressivo”, dramático e livre, de efeito teatral. 


Agesandro, Atenodoro e Polidoro: Grupo de Laocoonte, século I a.C.
O sofrimento e as paixões apoderam-se dos corpos e dos rostos; os grupos escultóricos, susceptíveis de composições mais dinâmicas, são preferidos às estátuas individuais; mesmo as figuras isoladas parecem ter sido extraídas de uma narrativa, como no caso de O Gaulês Moribundo ou do grupo Laocoonte.


o Altar de Zeus, de Pérgamo
Esta estética – movimentada, expressiva e teatral – é igualmente adoptada pelos relevos, como é evidente no caso do Altar de Zeus, de Pérgamo.
A par das representações monumentais, desenvolve-se neste período o gosto pelo retrato e pelas cenas do género, retiradas do quotidiano. Em ambos, o realismo foi tão expressivo que chegou a dar ênfase às deformidades físicas e às representações da infância e da velhice.
Já em pleno período romano, tornaram-se populares as estatuetas de Tanagra, pequenas figurinhas de barro policromado, cópias de originais clássicos, inspiradas em cenas pitorescas do quotidiano ou da religião. Constituíram uma requintada arte de salão, destinada ao consumo privado das elites, o que mostra a complexidade e erudição do estilo de vida das sociedades helenísticas.

A cerâmica e a pintura



A cerâmica, pela sua decoração – sobretudo a partir da fase arcaica recente, em que as figuras negras eram pintadas sobre fundo claro, e do estilo clássico, de figuras claras sobre fundo negro -, com relatos de cenas míticas, representação de reis e atletas, de cenas do quotidiano, etc., constitui um repositório fidedigno de imagens da arte e da cultura gregas. Na falta de outros documentos históricos, como o da pintura mural que desapareceu quase toda, é à cerâmica que vamos colher as informações necessárias para o entendimento da cultura, da civilização e da plástica gregas.
De entre o artesanato artístico deixado pelos Gregos, a cerâmica toma um lugar de destaque. Mercadoria de primeira necessidade pois servia para múltiplos usos, a cerâmica teve grande produção , proliferando em inúmeras oficinas que geraram estilos regionais ainda hoje reconhecíveis. Entre os que é possível referenciar (o da Beócia, o das Cíclades, o de Creta, o de Rodes...), destacam-se o coríntio e o ático, onde sobressaem as oficinas atenienses, detentoras das peças mais significativas e variadas, bem como dos autores de maior qualidade. A sua superioridade é comprovada pela grande procura dos seus produtos em todo o mundo antigo. Levada pelos mercadores (Gregos, Fenícios ou outros), a cerâmica espalhou-se por todo o Mediterrâneo, mesmo fora do mundo helénico, sendo possível encontrar-lhe vestígios na Peninsula Iberica, na Itália, na Galia, na Germânia, no Egipto, na Síria, na Mesopotâmia e até nas areas mais remotas do Império Persa.
A perfeição alcançada mede-se quer pela qualidade técnica evidenciada (tipo de pastas, cozeduras e engobos utilizados), quer pela simplicidade, elegância e funcionalidade das formas produzidas. Estas obedecem a rigorosas pesquisas formais que, aliando forma e função, procuraram satisfazer as necessidades práticas para que as peças eram criadas: serviço doméstico, usos artesanais e comerciais, apoio às cerimónias e aos rituais fúnebres. As tipologias conhecidas encontram-se definidas desde os séculos VIII e VII a.C.  (período arcaico) e foram norteadas por concepções estéticas e estruturais que tinham por base a geometria. Nos períodos seguintes, a variação formal registou apenas alterações de tamanho e de proporção entre as diferentes partes do vaso: o pé ou base, o corpo ou bojo, o colarinho ou gargalo, a boca ou abertura, as asas ou alças. Mais longa é a história dos seus estilos decorativos. O seu estudo é, entre o de todas as outras artes helénicas, aquele que melhor permite conhecer a evolução da plástica grega, dado o quase total desaparecimento da grande pintura mural e a escassez de originais na escultura. É, também, aquele que melhor acompanha e documenta a evolução social, cultural e política da História da Grécia.
Na evolução plástica da cerâmica grega os especialistas distinguem os seguintes estilos:

O estilo geométrico, situado entre os séculos IX e VIII a.C., filia-se ainda na grande tradição dos vasos creto-micénicos, distinguindo-se artisticamente pela opção estrita dos motivos geométricos como base ornamental. Esses motivos eram dispostos à roda do corpo dos vasos em bandas, ou frisos paralelos e sobre-postos cobrindo-os quase até à abertura. Canda banda era ornamentada a partir de motivos geométricos simples – O ponto, a linha, o círculo -, organizados em combinações e variações criativas, algumas das quais usadas desde o Neolítico: meandros, gregas, triângulos, losangos, linhas quebradas ou contínuas, axadrezados... Estes motivos eram realçados a preto ( ou com um verniz castanho-ocre, muito brilhante) sobre o fundo de cor  natural dos vasos.
O principio formal desta arte geométrica, abstracta em si mesmo, baseava-se, sem dúvida, na experiência técnico-artesanal (a rede de tecituras criada nos teares lembra o principio organizativo dos meandros e das gregas), mas representava, também, um certo sentimento intuitivo da estrutura geométrico-matemática patente na Natureza e no Universo e base do pensamento e da filosofia gregos.
A partir de inícios do século VIII, reintroduziram-se os elementos figurativos na decoração cerâmica, mas estes apresentavam-se como meras silhuetas a negro, muito esquematizadas e estilizadas, de onde se excluíram todos os pormenores secundários. Estes elementos figurativos eram constituídos por animais compondo pequenos frisos decorativos e por seres humanos, isolados ou organizados em cenas descritivas e narrativas. Neste caso, os temas resumiam-se a batalhas e cerimónias fúnebres, denominadas de prophesis (à letra, “deposição do cadáver”). Nos primeiros, as personagens eram guerreiros apresentados em diversas posições de combate; nos últimos, as cenas descrevem os cortejos fúnebres com soldados e carpideiras seguindo o carro onde viaja o corpo do morto, exposto sobre a urna. A uniformidade das cenas e das personagens impede-nos, hoje, de saber se se tratava de relatos da vida real ou de episódios mitológicos de significado sagrado.
Quanto às formas, a tendência foi para o aumento progressivo do tamanho das peças, algumas das quais atingiram proporções monumentais. Com efeito,  as ânforas e crateras da necrópole de Dipylon (junto ao Pireu) – As mais famosas deste período – ultrapassaram, nalguns casos, um metro e meio de altura. Estas grandes peças destinavam-se a ser colocadas nos cemitérios como indicadores das sepulturas, à maneira de estelas ou monumentos funerários. Continham óleos, unguentos sagrados e outras oferendas feitas aos mortos. Nos finais do século VIII, culminando esta evolução, a arte geométrica entrou em fase de desintegração.

O estilo arcaico situa-se entre o final do século VIII e o inicio do século V a.C.
Sob o ponto de vista da cerâmica artística, este período subdivide-se em duas fases evolutivas: a fase orientalizante e a fase arcaica recente. fase orientalizante vai, aproximadamente, até 650 a.C. A cerâmica deste período pelo pendor figurativo que reflecte as influências decorativas orientais, provenientes dos contactos comerciais e coloniais, traduzindo-se nos temas, na figuração e na expressão.
Os temas caracterizam-se pelo regresso ao figurativo – nascido da necessidade de narrar, e representar já que a variedade das realidades naturais e sociais vividas e presenciadas pelos Gregos, neste período, a isso impelia – e pelo aparecimento das cenas de carácter mitológico.  figuração define-se pela inclusão de animais míticos ou lendários e de figuras híbridas como grifos, esfinges e górgonas; e pela representação de elementos decorativos de inspiração vegetal e naturalista, como lótus e palmetas. Na expressão é dada a preferência a figuras de grande tamanho ( que chegam a ocupar todo o bojo do vaso) tratadas ainda em silhueta, mas onde se incluíam já, pela técnica da incisão, pequenos traços realçados a branco ou vermelho que compunham pormenores anatómicos ou de vestuário.
Estas características foram particularmente marcantes na cerâmica denominada proto-ática, que abrangeu a produção das oficinas da região ateniense na primeira metade do século VII a.C.
A fase arcaica recente abrange os finais do século VII até cerca de 480 a.C.
Esta fase ficou marcada pelo aparecimento, na Ática, da cerâmica decorada pela técnica das figuras pintadas a negro. Trata-se de uma cerâmica elegante e sofisticada, fruto de uma técnica elaborada, destinada ao comércio de luxo.
Sobre o fundo vermelho do barro destacavam-se os elementos figurativos, representados como silhuetas estilizadas à maneira antiga (rosto de perfil com olho de frente tronco de frente, ancas a três quartos e pernas de perfil) e totalmente preenchidas a cor negra. A técnica da incisão permitiu pormenorizar o interior das figuras, agora enriquecidas com linhas de contorno dos músculos e outras partes do corpo, com particularidades como a barba, o cabelo ou os padrões do vestuário.
O interesse pelos pormenores anatómicos sugere, aqui e ali, a influência da plástica aplicada à escultura deste período (estilo severo).

O TEMPLO DE PARTENON



O Parténon é um templo dórico, periptero (por ter colunas a toda a volta), com oito colunas nas fachadas mais estreitas e dezassete nas laterais. Foi construído em mármore do Monte Pentélico (usaram-se nele 22 mil toneladas) com as mais modernas e sofisticadas técnicas conhecidas na época. A sua base, ou estereóbata, que tem três altos, mede 30,80 x 69,47 metros; e as colunas exteriores, que rodeiam toda a massa do edifício, têm 10,43 metros de altura. É o maior e mais carismático dos templos gregos da Antiguidade, para a glória da cidade que o construiu. Acima das colunas, de elegantes capitéis geométricos, encontra-se o entablamento, cujo friso alterna triglifos com métopas esculpidas. A rematar as fachadas mais estreitas, os tímpanos dos frontôes, formados pelo telhado de duas águas, ostentavam, na sua época, uma riquíssima decoração escultórica, pintada em cores vivas, tal como os outros elementos construtivos – fustes, capitéis e entablamento.
No interior, a enorme cella (30m de comprimento por quase 20 de largura), dividida em naves, abrigava, a meio da nave central, a estátua de Atena Parteno, executada por Fídias em marfim e ouro, O tecto, plano e de madeira, era trabalhado com relevos pintados a dourado. A luz penetrava no templo pelas portas cerimoniais rendilhadas.
A decoração esculpida, de autoria da escola de Fidias, relata-nos cenas mitológicas e a vida da deusa, entre as quais a do seu nascimento, no frontão este.
Pelas suas proporções e pelo equilíbrio formal e decorativo, o Parténon é o paradigma do pensamento arquitectónico grego da época clássica.

O TEMPLO DE ATENA NIKÉ



O templo de Atena Niké é um pequeno templo de ordem jónica, construido em mármore pentélico sobre um embasamento de 8,26 x 5,64 metros. Só possui quatro colunas á frente e atrás, nas fachadas mais estreitas e, por isso, diz-se anfi-próstilo. Devido ás suas reduzidas dimensões, todo o espaço interno é ocupado com a cella, não possuindo opsitódomus.
A decoração, de autoria de Agorácrito, concentra-se nos elegantes capitéis de volutas enroladas, no friso contínuo (com cerca de 30 metros de perimetro) e nos tímpanos dos frontões.

O friso contém, a leste, os deuses do Olimpo que seguem as batalhas dos cavaleiros Gregos e Persas; nos outros lados, estão representadas lutas entre hoplitas (soldados) gregos e persas.
Nos tímpanos dos frontões, a decoração apresenta uma temática diferente: a dos gigantes, a este, e a das amazonas, a oeste.
Por se encontrar junto a um precipicio, este templo estava rodeado por uma balaustrada de 1,05m de altura, decorada por uma série de vitórias aladas (nikái), em atitudes graciosas e de grande finura de proporções, erguendo troféus e celebrando sacrifícios.


O vaso Pronomos é uma cratera de volutas de grandes dimensões (75 cm de altura, 33,5 de diâmetro na parte mais larga), encontrado em Ruvo di Puglia, na Magna Grécia, Itália, em 1839.
Estilisticamente, pertence ao “estilo” das figuras vermelhas e foi executado numa oficina ática, por um artista conhecido por “pintor de Pronomos”. A peça foi coberta a verniz preto, de onde ressaltam os motivos decorativos na cor natural da argila ou a branco, com os pormenores anotados a negro. A decoração concentra-se no gargalo, nas asas em forma de volutas e no bojo. As duas primeiras contêm motivos naturalistas estilizados, organizados em frisos separados por linhas ou faixas horizontais. O bojo recebe uma rica decoração figurativa, organizada em dois registos paralelos. No registo superior do lado A, vemos numerosas personagens que representam um grupo de actores de teatro preparando-se para entrar em cena (alguns seguram na mão as respectivas máscaras), perante o olhar dos deuses Dioniso e Ariadne, ao centro, abraçados e ricamente vestidos. Dioniso segura com a mão direita o seu bastião e está coroado de heras, como é seu atributo. Á esquerda do casal de deuses, de joelhos, está o pequeno Himeros que estende as mãos em direcção á máscara segura pela personagem á sua frente.
No registo inferior, ao centro, está a figura do flautista Pronomos, um músico da Beócia que ganhou fama em Atenas no século V a. C. (é esta personagem real que dá o nome ao vaso). Encontra-se ricamente vestido e coroado de louros. À esquerda e á direita de Pronomos, várias figuras que representam jovens coreutas (um deles mascarado de sátiro a dançar) e músicos com os seus instrumentos.
No lado B, a composição é um pouco menos densa, embora se distribua igualmente por dois registos. No superior, ao centro, vemos de novo Dioniso e Ariadne, abraçados, caminhando. Ao lado de Dionísio há um pequeno Eros flutuando. Em baixo, e da esquerda para a direita, encontramos um coreuta-sátiro, ensaiando um passo de dança, uma pantera entre duas Ménades e um sátiro nu.
A importância do vaso Pronomos reside no seu valor documental. Ele comemora, como num manifesto, os membros de uma companhia teatral, colocandoi-os em paralelo com Dionísio. Para além disso, contém numerosa informação sobre os actores, suas vestes e máscaras, e sobre os músicos que os acompanhavam.

Ernst Ludwig Kirchner | M9

La Fundación Mapfre em Madrid apresenta a primeira amostra retrospectiva dedicada ao  artista alemão Ernst Ludwig Kirchner (Aschaffenburg, 1880 - Frauenkirch, Suiza, 1938), membro fundador do grupo expressionista Die Brücke e um dos nomes mais importantes da historia da pintura.


HOPPER | Um americano em Madrid

Edward Hopper já há muito devia ter uma grande exposição no Museu Thyssen-Bornemisza em Madrid.
Chegou a altura da sua inauguração. A exposição abre com uma retrospectiva de 73 obras pintadas exaustivamente pelo pintor que marca a arte do século XX.

Códice Calixtino e o Caminho de Santiago.



Códice Calixtino

O Códice Calixtino na Catedral de Santiago de Compostela.


O códice conhecido em latim como Liber Sancti Jacobi ou Codex Calixtinus é um conjunto de textos reunidos em Santiago de Compostela nos anos finais do arcebispado de Diego Gelmírez e que se apresentava como da autoria do Papa Calisto II.

O códice consiste num conjunto de textos anteriores de carácter litúrgico, histórico e hagiográfico que visava a servir como promoção da sé apostólica de Santiago de Compostela, pensado pelo arcebispo Gelmírez ou pelo seu círculo próximo e redigido por vários autores entre 1130 e 1160.

O exemplar mais antigo, datado entre 1150 e 1160, conserva-se na Catedral de Santiago de Compostela e é cópia de um exemplar modelo. A cópia que realizou o monge Arnaldo de Monte em 1173 conhece-se como manuscrito de Ripoll e conserva-se actualmente em Barcelona.

O Códice Calixtino divide-se em cinco livros e compõe-se de 225 fólios a dupla cara de 295 x 214 mm, cada fólio contém, pelo geral, uma única coluna de 34 linhas. O manuscrito restaurou-se em 1966 e voltou-lhe acrescentar o Livro IV que estava fora do manuscrito desde 1609.

O Códice Calixtino foi impresso pela primeira vez em 1882, numa edição feita por Fidel Fita.

Parte do manuscrito traduziu-se do galego no primeiro terço do século XV, conhecido como Milagres de Santiago, recolhe partes da História Karoli e da Guia do Peregrino.


Livro V

Ao quinto livro, Iter pro peregrinis ad Compostellam, conhecido como Guia do Peregrino de Santiago de Compostela compreende os fólios 192 ao 213. Atribuído a Aimery Picaud, autor de Parthenay-le-Vieux (Poitou), foi escrito entre os anos 1135 e 1140. O texto é um conjunto de conselhos práticos para os peregrinos, baseado no próprio percurso do autor, com os lugares onde descansar, qualidade das águas, as relíquias a venerar, as gentes e cidades do caminho ou os santuários a visitar antes de chegar à catedral de Santiago de Compostela.

O Caminho de Santiago | O que significa e como se deve preparar.



O que é o Caminho de Santiago?

Desde a descoberta do túmulo do Apostolo Santiago em Compostela, no século IX, o Caminho de Santiago tornou-se na mais importante rota de peregrinação da Europa Medieval. A passagem dos inúmeros peregrinos que, movidos pela sua fé, se dirigiam a Compostela de vários pontos da Europa, serviu como ponto de partida de todo o desenvolvimento artístico, social e económico que deixou os seus vestígios ao longo deste percurso. Mas o caminho não é um resto arqueológico de um esplêndido passado histórico, mas sim um caminho vivo, renovado, pela passagem de novos peregrinos, dos viajantes e dos turistas que revivem já em pleno Sec. XXI uma Historia que é património comum de todas as povoações da Europa.



Peregrinar a Santiago ao modo tradicional, não é só simplesmente estar em contacto com a natureza ou fazer desporto, é isto mas muito mais. È encontrar-se com as raízes religiosas e históricas da Europa, olhar a arquitectura com outros olhos, é renovar um caminho de transformação interior, é caminhar e viajar ao ritmo de outros séculos, é…peregrinar.



Pode-se dizer que o Caminho de Santiago é um símbolo. É uma rota de fé, uma rota de arte e cultura, uma rota ecológica e humana: um encontro com a transcendência; a procura de si mesmo, uma peregrinação ao misterioso morrer e renascer. É uma aventura física e sobretudo espiritual.

Conselhos práticos para percorrer o Caminho a pé

Para mim a peregrinação a pé a Santiago de Compostela foi uma das experiencias mais gratificantes da minha vida. Já fiz caminhadas durante os meus tempos de escuteiro, percorri a Europa á boleia 2 vezes, fiz 4 inter-rails, depois de adulto todos os meses de verão visitava com a família um país ou uma região do norte da Europa… mas esta caminhada foi ao mesmo tempo um desafio físico e mental…

É um desafio que se deve preparar muito bem.

Antes de mais nada, é necessário ambientar-se com o tema… lendo livros sobre a historia de São Tiago, sobra a Historia do Caminho e sobre a Peregrinação.



O Peregrino vai aperceber-se que faz parte de um elo da grande cadeia de peregrinos que lhe precederam e que de algum modo lhe preparou o percurso que está a fazer.

Lembro-me que só quando visitei a Catedral de León dei conta do numero de peregrinos que estão a fazer o caminho ao mesmo tempo que eu. Falei com um italiano que estava a carimbar a Credencial na Catedral, que vinha de Itália… cá fora na praça, uma imensidão de peregrinos descansavam, para recuperar as forças para o dia seguinte.

Eu comecei a interessar-me pela Peregrinação há 11 anos atrás, quando um amigo (Paulo Perre Viana) me falou da caminhada. Dizia-me que regressou com o mesmo BI e o mesmo nome, mas na realidade ele já não era a mesma pessoa que tinha partido…

Comecei desde então a interessar-me por este tema, até então completamente desconhecido. Comecei a ler e a documentar-me e a pouco e pouco fui preparando o Caminho na minha mente. Os filhos entretanto ficaram como prioridade e adiei, adiei, até ao dia 12 de Agosto de 2010.

Existe uma variedade ampla de documentação sobre os Caminhos de Santiago, quando chegamos a León verificamos que as compras de livros foram mínimas, são várias dezenas de autores a falar do tema e ainda por cima, no Turismo oferecem gratuitamente alguns livros.

Deve fazer um plano prévio antes de iniciar a caminhada. O normal é percorrermos 25 a 30 kilometros por dia. Comece por traçar etapas curtas e depois vá aumentando a distancia. É importante ouvir o seu corpo, ouça o que ele lhe diz. Quando chega ao destino de cada etapa a entrada nos albergues ou abrigos é básica, estes lugares estão reservados aos peregrinos. O lema da maior parte deles é: dê o que puder, tire o que precisar. O normal, na maior parte das vezes é dar 5 a 8  euros pela estadia.

A preparação do equipamento

A mochila será a vossa companheira de caminho durante muitas horas, por isso deve ser cómoda e leve, anatómica, com correias de aperto na cintura, no peito e com bolsas laterais e superiores. Não se esqueça que o peso é o grande problema do caminheiro. O peso suplementar fez mossa durante 6 horas de caminho, acreditem…não transportem na mochila mais de 10% do peso do teu corpo. Coloca os objectos mais pesados no fundo da mochila. Nos dias nebulados, coloca a capa da chuva no saco superior da mochila, deste modo, é mais rápido retirares a protecção quando começa a chover rapidamente.


O saco-cama deve ser adequado á estação. No verão escolhe um saco mais fresco e no inverno um mais grosso, mas sem ser para regiões polares, próprios para montanhas com neve. Não esqueças de levar a esteira ou esponja para evitar o contacto com o chão húmido.

O calçado é outro dos elementos importantíssimos. Procura levar mais um umas botas adequadas. Lembra-te que vais passar em sítios com pedra, lama, terra mole que fica presa nos rastos das botas, enfim pensas em todas as variáveis…em relação ás bolhas nos pés, eu levei para a caminhada um spray, agulha e linha para furar as bolhas, desodorizante para os pés, uma caixa de pensos para calosidades, protecção solar 50, um chapéu tipo panamá e um cantil para água. 

Em relação á roupa, deves levar pouca, dois conjuntos de cada peça, uma camisola e uma capa para a chuva. Um saco com um pouco de detergente para a roupa, um bastão ou vara de caminhante, leva um pouco de comida, fruta, frutos secos, chocolate. Leva o teu cartão de assistência de saúde, eu esqueci-me do meu e espero que não tenha necessidade de ir a um hospital. Aconselho levar o cartão multibanco e pouco dinheiro. Um pequeno bloco A5 para apontamentos, não esqueças de carimbar a Credencial em cada abrigo que pernoitares. Lembra-te que se fizeres só 100 km terás que carimbar duas vezes por dia a Credencial. Não esquecer que todo o percurso está assinalado com setas amarelas e marcos de pedra, evite as horas de maior calor, sai pela manhã (6horas). Antes de sair enche o cantil, coloca a pomada nos pés, o protector solar na cara, braços, come uma coisa leve e faz alongamentos. Se encontrares alguns albergues sem condições, agradece na mesma, lembra-te que nos caminhos das montanhas as pessoas estão ali para te ajudar muitas vezes  sem nada querer em troca, é esquisito não é, mas é mesmo verdade. Nos albergues, antes de saíres, procura deixar tudo limpo. Quando caminhares ao longo da estrada, tem atenção ao automóveis… se precisares de mais informações contacta-me para o meu Email:  ag@epci.online.pt

A Arte no Caminho de Santiago | de Leon a Santiago de Compostela | 2ª parte


(…)
Cheguei a León, são agora 16 horas, vou ficar numa pousada junto á catedral e depois comer qualquer coisa.Catedral de Léon - Pórtico da Catedral - Escultura frente à Catedral.




Estou em frente á catedral gótica de León, edificada no Sec.XIII no mais puro estilo gótico, sobre os alicerces de umas termas romanas e do palácio real de Ordoño II. Destacam-se os seu 125 janelões, com mais de 1.900 m2 de vitrais. O seu coro tem 76 assentos feitos em nogueira no Sec. XV. O claustro é do Sec. XVI. Fiquei impressionado com o trabalho em madeira de nogueira nas portas da catedral, um magnífico trabalho de escultura.

Existe uma escultura no centro da Plaza Regla, que é a local onde se localiza a Catedral, essa peça tem representado vários modelos de mãos em baixo relevo, e está no centro de um labirinto desenhado na calçada. O peregrino deve primeiro contornar o labirinto dar a volta á escultura, em seguida colocar primeiro a mão direita no molde certo. Dizem que dá sorte para o resto da caminhada.

Uma das primeiras coisas a fazer quando chegamos a León é procurar alojamento. Os preços das pousadas são acessíveis, também podem dirigir-se directamente ao Turismo, que fica junto da catedral, uma ruela em frente, dirigem-se para a Praça Santa Maria del Camino, onde fica situado as Beneditinas, que é também a sede da associação de amigos do Caminho de Santiago, dirigem-se á recepção, mostram a vossa identificação e pedem a “Credencial do Peregrino”, ao mesmo tempo podem colocar o primeiro carimbo. Lembro que “A Compostela” que é concedida por parte da SI Catedral de Santiago e só se outorga quando na peregrinação se realizam pelo menos os 100 últimos quilómetros a pé ou a cavalo, ou 200 km em bicicleta. Este documento emite-se na chamada Casa de Dean, na Rua do Villar, nº1, junto á Catedral. Na sua origem a Compostela era passada em pergaminho, onde se relatava um texto extenso sobre Santiago como padroeiro e protector “único e singular das Espanas”.

A Compostela só é passada nos anos Jubileu. Quando coincide que o dia da festa de Santiago apóstolo, (25 de Julho) coincida num Domingo. O próximo ano Santo ou Jacobeu, será dentro de 11 anos.

Nas Beneditinas existe alojamento gratuito, perguntem se podem pernoitar.

Os carimbos na Credencial podem também ser feitos no Turismo ou na Catedral, este encontra-se em cima de uma mesa, na livraria.

À saída das Beneditinas, passei por uma praça que parece que desde a Idade Média permanece intacta, somente os vários cafés com as suas esplanadas alteram a imagem medieval da praça. 

  Diário de um peregrino no caminho de León a Santiago de Compostela
360 quilómetros a pé pelo Caminho Francês 


12 de Agosto de 2010
Lisboa - Leon


Visitei o museu Bíblico Oriental, que se situa perto da Catedral, na Plaza de Santo Martino, nas traseiras do Turismo. O intuito era de entrar na Exposição sobre Alexandre Magno. A surpresa foi…sem palavras… situa-se neste local o Instituto Bíblico Oriental, que é o maior centro documental da Espanha em Aramaico, Cuneiforme, Hieroglífico e Grego. Fiquei apaixonado por esta cidade, se pudesse vivia aqui, sem a mínima dúvida. Aqui existe toda a Historia da Antiguidade pré-clássica, Clássica e Medieval.

Que cidade fantástica…

A 50 metros do Museu fica a Praça de S. Isidro, emoldurada pela Basílica do mesmo santo. Este monumento começou com arquitectura românica e acabou em estilo Gótico…

Numa ruela junto a Santo Isidro entrei numa livraria muito antiga, quase um misto de alfarrabista, procurava um Códice medieval, escrito por um peregrino no sec XII e cuja cópia está na Catedral de Santiago. Dirigi-me ao balcão, respondeu-me que era possível conseguir uma na próxima semana, mas que me custaria 140 euros, era uma raridade. Disse-lhe que não era esse o preço que estava a pensar dar pelo livro…finalmente depois de estarmos á conversa durante algum tempo, perguntei pelo dicionário da escrita hieroglífica que está editado em castelhano… respondeu-me que há muito que se encontra esgotado, mas tem um exemplar que me pode fotocopiar…mais uma vez pensei estar em maré de sorte…assim fez, fotocopiou-me o livro e simpaticamente disse que “podem ser 20 euros”…achei um maravilha…

Existe perto desta livraria, atrás da catedral, o Hotel “casco antiguo” de 2 estrelas que me parece ser uma preciosidade, preço 18 euros noite… fica na calle Cardenal Landazuri.

No centro Leonês de Arte está, até 12 de Setembro, uma exposição sobre ”La herencia del reino de León a través de su arquitectura”. O Centro fica situado na Puerta de la Reina, perto da Plaza Santo Domingo.
É já noite e os leoneses saem todos á rua para passear… as esplanadas estão cheias. Está a ficar frio, vou comprar uma camisola, só tenho duas tshirts na mochila.
… une proposition à mon Dieu… Dieu Pére… beaucoup de fois je me sens saisi à des choses matérielles qui m'empêchent de sortir de moi même. Je suis dans le début de ma randonnée, dans le pèlerinage à Santiago de Compostela, aide-moi à faire de ma vie une vie plus authentique. Je te demande que pendant ce chemin que commencement maintenant, tu me aides à être toujours disponible pour que tout ce lequel vous vouliez me demander. Je demande te que tu guides mes fils, pour que suivent les chemins de la vie, basés sur le respect, le travail honnête et la loyauté. Ámen

Dia 2 | 13 de Agosto de 2010

Acordei em León…levantei-me cedo e acabei de tomar o pequeno almoço num café muito simpático frente ao Hostal, na calle Alcazar de Toledo, temos ligação eléctrica ao lado da mesa para o portátil e internet .
León está situada entre os rios Torio e Bernesga, local escolhido para acampamento romano da célebre “Legión VII”, no ano 70 d. Cristo. Esta legião foi Criada por Galba, que resultou do recrutamento dos nativos desta região. Curiosamente esta palavra deu origem a “León”.

León na Idade Média era uma cidade cheia de peregrinos e albergues, fazia rivalidade com Burgos. Em 1255 começou a construção da Catedral Gótica com as capelas de abside e vitrais dos séculos XIV e XV.
Parto amanhã para Astorga, hoje vou visitar o Musac, Museu de Arte Contemporânea, fica um pouco distante do centro da cidade, assim aproveito para fazer um exercício de preparação para o dia seguinte, que vai ser já a sério.

São 3h30 e estou a sair do Museu. Fica situado na Avenida Reyes Leoneses, o site é www.musac.es. a entrada é gratuita. A exposição que visitei hoje, tem uma temática ligada á América latina. Muito interessante.

No regresso visitei a praça de São Marcos onde se situa o Museu de León, o restante edifício está transformado num Parador de 5 estrelas.

São 8h30 estou na Plaza Mayor a beber uma cerveja, num café chamado “The Harley”. Da parte da tarde estive outra vez na catedral ver em pormenor o trabalho de restauro que foi feito, a reconstrução nos finais do sec.XIX e durante todo o século XX, o pórtico sul ainda tem os andaimes…gostei imenso e aprendi muito sobre o pensamento que a tutela da cultura em Espanha, tem acerca do património arquitectónico.


14 de Agosto
León – San Martin del Camino (26km)



Parti de León por volta das 8h30, fui sempre ao longo do rio Bernesga e na Praça de San Marcos atravessei a ponte em direcção ao polígono industrial. Até Virgem del Camino foi quase sempre por asfalto, mas com pequenas subidas e descidas. Existe aqui uma fonte, que está rodeada por um relvado, para podermos fazer o nosso primeiro descanso.

No Códice  existe uma referência ao encontro de Laffi, que ficou horrorizado porque descobriu, nesta região, um cadáver de um homem que tinha sido comido por lobos.

Na retoma do caminho noto que os pés não estão a querer colaborar, mas depois de novamente estarem quentes a dor passa. Depois passo por Valverde de la Virgem, onde está outra fonte com água fresquinha, enchi o cantil e continuei. Foi a partir daqui que as coisas começaram a doer. Já estava a caminhar há 5 horas, ainda tinha que descer paraVilladangos del Páramo, o sol era muito forte, a sensação de que tinha o braço esquerdo e o pescoço vermelho ou preto era horrível, aliás esta era palavra que eu usaria para descrever o resto do caminho até San Martin del Camino, as dores nos ombros, das pernas, tornozelos e até da mão, de tanto usar o bastão eram quase insuportáveis. Finalmente cheguei a Villadangos, parei numpequeno bosque, com uma fonte, um riacho e umas vacas leiteiras muito quietinhas. Descalcei-me e coloquei um penso anti-bolhas na palma do pé esquerdo, bebi água, passaram alguns caminheiros de bicicleta e a pé, e quando estava a preparar-me para sair, chega um casal de alemães de bicicleta, com idade para estarem em casa a cuidar dos netos, ela bebe água e ele abre a mochila e tira um cerveja fresquinha. Ficamos um pouco à conversa…Eu regresso ao caminho quando passam por mim, novamente, o casal alemão e ele grita ”olá amigo português”.

Quando passamos por um peregrino dizemos “bom caminho” e quando ouvimos imensas pessoas ao logo do trajecto, mas não são peregrinos, a desejar-nos “bom caminho”, simplesmente agradecemos.

De Villadangos del Páramo até San Martin del Caminho são cerca de 6 kilometros. Não sei explicar a força de vontade que tive, para terminar este dia, pareceram-me 50 quilómetros, eu via finalmente a vila lá ao fundo, mas como era plano, nunca mais terminava, finalmente vi anunciado numa placa: abrigo 300 metros…a pouca distancia um outro abrigo mais modesto, com um aspecto de casa prefabricada surgiu atrás de umas arvores, nem hesitei, entrei e atendeu-me uma senhora muito simpática, que parecia conhecer-me desde o berço, fez-me uma visita guiada, como se tratasse de um hotel 5 estrelas. A serio, que fiquei comovido pela recepção. Dei-lhe 5 euros e ela disse que tinha um quarto que era muito fresquinho…eu agradeci. De súbito caí na cama como  quase sem sentidos, tentando encontrar uma parte do meu corpo que não me doesse. Passado uma hora fui tomar banho, lavar a roupa, que estava toda cheia de pó e finalmente fui escrever para a sala. Uma senhora de Burgos que já esta a fazer o caminho há uma semana, vem acompanhada pela filha e disse-me que vai terminar amanhã em Astorga, já não pode mais e que para o ano recomeça, nessa cidade, o caminho.

A senhora do Abrigo disse-me que o normal é o peregrino ficar em Villadangos, e no outro dia Villadangos – Astorga, mas eu continuei até san Martin del Camino e percorri 26 quilómetros. Amanhã vou chegar a Astorga, são 28 quilómetros.

Mais á frente quando for para Ponferrada, (38 km), vou caminhar 8h30 segundo os caminheiros veteranos… claro que vou terminar. A minha vontade de chegar a Santiago esta a aumentar cada vez mais, esperei 11 anos por esta oportunidade.

Quando estava na esplanada chegaram três peregrinos de bicicleta, uma mãe (Estefanie, do Canadá, professora de inglês) com os seus dois filhos de 9 e 12 anos. Fazem 50 km por dia, partiram há uma semana de Pamplona.
Ficámos todos no mesmo quarto e o filho mais velho – Oliver - esteve sempre a conversar comigo, até começar a ler um livro antes de adormecer. Miúdos que se levantam todos os dia as 6h30 para fazer 50 km de bicicleta…

15 de Agosto
De San Martin del Camino a Astorga…26 Km
(saída 7h30 e chegada ás 15horas, total: 7 horas a caminhar)





Oliver, Stefanie e Tasio na ponte medieval de H. Órbigo - Venda á saída de Hospital de Órbigo
Levantei-me ás 6h30, acordei os miúdos e a mãe e sai, combinamos um encontro mais à frente para comer.

Comecei a caminhar e uma bolha, agora do pé esquerdo, impede-me de caminhar. Mas continuei e quando entrei na ponte do rio Órbigo os meninos e a mãe chegaram, estivemos ali a conversar um pouco, eles seguiram para Astorga onde combinaram esperar por mim para almoçarmos juntos.

Leio uma informação que neste lugar, no ano de 1434, um nobre Suero de Quinhones, organizava combates ou torneios contra os nobres que queriam passar a ponte para se dirigirem a Santiago. Dizia-se que era para conquistar o coração da sua amada dona Leonor de Tovar…

Chego a Hospital de Órbigo e paro para descansar numa praça frente á Igreja de San Juan Batista, do sec.XVII, com um altar barroco em talha dourada muito bonita. Quando estava a tratar dos meus pés converso com dois catalães que me deram alguns conselhos sobre como proceder em caso de bolhas…eles vem dos Pirenéus e já caminham há 20 dias…. Dizem-me que a partir de agora vou sentir muitas dores…penso em voltar para Lisboa. Nisto a senhora responsável pela Igreja chama “peregrinos podeis entrar”.

Chegam duas peregrinas que eu já conhecia do dia anterior no albergue, dissemos olá, repara que uma tem uma tendinite que assusta. Entram na capela para carimbar a credencial, entrei de seguida e foi nesse local que em decidi a continuar a peregrinação. Estabelecemos uma boa relação e resolvemos fazer o caminho juntos até Astorga, eu Mariví e Edurne.

Chegada ao alto da montanha, depois de Santibanez de Valdeiglesias

Passámos por grandes campos de milho, com canais para irrigação, afastamo-nos da estrada e começámos a dirigir-nos para os campos, longe da estrada nacional.

Chegámos a Santibanez de Valdeiglesias, onde se assistia a uma missa (hoje é Domingo) e a capela tinha um altifalante que projectava o som da homilia pelos campos fora.

Fizemos uma paragem rápida e um antigo peregrino disse-nos que é agora que começa o verdadeiro caminho. É mesmo verdade, começamos a subir, a subir, descer e depois subir.

Não é necessário levar enormes garrafas de água, porque o peso conta e vão encontrar muitas fontes ao longo do caminho.

Cruz Lavrada perto de Astorga 
Até chegarmos á cruz lavrada parece uma eternidade de tempo. Na cruz encontrámos mais peregrinos, chegamos a Astorga pelas 15 horas… não é necessário referir o cansaço.

A simpática Leonor foi buscar-nos á entrada da cidade e fez uma volta ao burgo para conhecermos os locais mais interessantes. Fomos colocar as mochilas no albergue, lavamos a roupa, comemos umas coisas boas que Leonor preparou e de seguida fomos visitar o palácio de Gaudi e a Catedral.

Catedral de Astorga - Palácio de Gaudi em Astorga
É uma cidade linda, com a sua magnifica Praça Maior. Depois do passeio pela cidade, voltamos ao Albergue e fomo-nos informar da sua Historia, na idade media era um hospital de peregrinos.

Na Espanha havia 280 hospitais para peregrinos. Não me posso esquecer de mencionar que fui ao centro médico e que me trataram as bolhas nos dedos dos pés, doeu um pouco. Quando se tem bolhas não se deve por Compeed, deve-se antes furar com uma agulha para sair o líquido e de seguida colocar iodo e deixar lá a linha com Betadine, em seguida proteger com gaze. Foi o que me disseram as duas enfermeiras.

16 de Agosto
Astorga – El Acebo (25km)

Levantámo-nos ás 6 horas com música gregoriana. Saímos ás 7'30. Encontrei-me com o Sérgio que é a sua terceira peregrinação a Santiago, um homem da informática que esteve um ano na Índia e que tem uma visão do mundo muito interessante. Chegamos em Santa Catalina de Somoza a 9 km de Astorga. Paramos para tomar um café e no bar encontrei a Estefanie com os filhotes Tasio e Oliver. O bar tinha o original nome de El Caminante. Novamente Chegou o Sérgio para tomar um chá.
Chegámos a El ganso para selar as credenciais numa pequena igreja com uma escada de teto e uma torre sineira. Já percorremos 13 km. São 12 horas paramos para comer no El Roble del Pelegrino. O sol queima e Marivi faz-me uma massagem na coxa da perna esquerda, a dor diminui…

O caminho é difícil, é sempre a subir, mas não tem pedras soltas…encontro-me com Alex, um catalão filho de italianos, que gosta de ser chamado o italiano e o seu parceiro Pedro, que é alpinista, diz que se sente melhor em montanha do que em estrada.
Estamos a dois quilómetros de Rabanal del Camino. Edurne está com o pé muito mal e segue de carro com a Leonor até ao abrigo de Foncebadón, eu e Marivi continuamos a caminhar mais 7 km.


Abrigo de Manjarin

Chegamos ao abrigo de Foncebadón, está cheio, temos que continuar até ao albergue de Acebo, no caminho passamos por Manjarin, cujo hospitaleiro é um excêntrico e sujo guia espiritual, parecido com um druida, responsave abrigo de 8 camas, mas um ambiente rodeado de uma magia que é uma espécie de mistura de hippy dos anos 60 com um feiticeiro…arrepiante…encantador na sua ingenuidade…enfim um ícone para os peregrinos. Ouvem-se cães e gatos numa sinfonia caótica. Este refúgio é conhecido como hospital de peregrinos desde 1180, mas actualmente só existe este estranho sítio, ao lado de um cemitério.
Estamos em plena montanha, quase a 1500 metros de altitude. Entramos em Acebo, um bonito sítio na montanha, já é tarde, estamos todos com fome, cansados e cheios de pó.
Somos muito bem recebidos pelos dois frades italianos do Albergue. A ceia é comunitária, salada, arroz e vinho. Ao longo da mesa grande, sentam-se 3 polacos, 2 eslovacos de Bratislava, 2 italianos 1 português, 4 espanhóis e 2 franceses, muito interessante…todos comunicamos.
Acreditem, estes abrigos não têm um preço fixo, damos um donativo pela dormida e refeições. A loiça é lavada por nós, todos colaboram. Temos que nos deitar até ás 10 horas e o acordar é ás 6.

17 de Agosto. 


de El Acebo, passando por  Ponferrada  a  Cacabelos (32km)

Saímos às 7 horas, dirigimo-nos em direcção a Ponferrada e encontrámos Fran, Trinidad e as filhas Sandra e Cristina. Hoje vamos caminhar 32 km até Cacabelos.

A estrada é má, porque desce constantemente e tem umas pedras enormes que resvalam…é horrível para os tendões, calcanhares e rótulas.
A paisagem é lindíssima, com prados verdejantes enfeitados com rolos de palha, arvores e riachos…
Albergue em Molinaseca
Chegamos a Molinaseca e já descemos até aos 600 metros de altitude.

Diz-se que os peregrinos ao passarem por esta vila, carregados de uma emoção de descer a montanha, arrancavam pedaços de madeira da porta da igreja. Consequências disso tiveram que substituir a porta de madeira por uma de ferro.

Temos que dar uma grande volta, para contornar a povoação, porque estão em festa e manda a tradição molhar os forasteiros que passem no meio do povoado. Caminhamos no meio de jovens todos encharcados.

Quando já estávamos a chegar novamente à estrada, para retomar o caminho, veio um tractor cheio de gente a tocar tambor, parou junto a nós, e encheram uns copos de chocolate quente, que era ofertado aos peregrinos, ao mesmo tempo que nos colocavam a marca dos dedos, com chocolate, na cara. Esta mistela caiu-nos no estômago como uma pedra…

Em Molinaseca surgiu a palavra “Yantar” que significa comer…têm fama de produzir os melhores enchidos da região.

Ao som de cânticos populares e batuques, continuamos a marcha até Cacabelos…

 Albergue de Cacabelos
Chegamos a Cacabelos muito cansados, o calor era muito forte e tínhamos os pés destroçados. 
Entrámos no albergue e reparamos que era dentro do recinto duma igreja românica. Era um ambiente mágico…encontramos a família de Fran que tinham chegado ás 7 da tarde.

Falámos com Kiara (de Florença) sobre os motivos para fazer o Caminho de Santiago, explicou-nos que vinha de Itália, acompanhada por 3 amigos e que se separou deles por ter necessidade de ficar só, para ter tempo para escrever, meditar e recarregar as baterias. Acabou a licenciatura em biologia e falámos sobretudo de politica, religião e poder eclesiástico.

Como não havia colchões suficientes para todos os peregrinos, muitos dormiram ao ar livre junto á parede da igreja.

Cacabelos é uma terra bonita, com o albergue situado frente ao rio que é referido no Códice medieval como “passa nestas paragens um rio que carrega águas conhecidas pela sua qualidade e pureza




Eu, acompanhado por Mariví e Edurne

18 de Agosto
Cacabelos – Villafranca del Bierzo (7 kms.)


Hospital de peregrinos de Cacabelos:
A porta abre-se a todos, enfermos e sanos, não só a católicos, mas também a pagãos, judeus, hereges, ociosos e inúteis e para alguns poucos bons e profanos”…   Poema do Sec.XIII


Albergue de Villafranca del Bierzo - Igreja Românica de Santiago (sec.XII)

Acordo ás 6h e Marivi prepara-se para me curar os pés, furando com a agulha as bolhas, deixando a linha dentro da pele e depois coloca Betadine para secar…tem sido assim todos os dias.

Saímos às 7h30 de Cacabelos por um caminho ao lado da estrada nacional. Marivi diz que os sapatos começam a formar parte dos seus pés, porque se estão adaptando a pouco e pouco. O objectivo consiste em chegar a Villafranca del Bierzo, porque assim podemos descansar no abrigo e recuperar forças para a etapa de amanhã, que vai ser dura. É preciso estar com as pernas bem descansadas para subir a montanha de 1400 metros. acreditamos que os primeiros 20 km serão de subida de nível médio e aumentará para nível alto nos últimos 10 kms passado.

Todos os dias vemos o nascer do sol, é uma sensação indescritível. O caminho está pintado de vinhedos cujas uvas produzem o famoso vinho da região del Bierzo. No Códice Calistino aparece uma frase referente a esta região: “o vinho e o latim chegam a todas as partes”. Villafranca del Bierzo é uma vila de peregrinos por excelência, situada na convergência dos rios Valcarce e Burbia rivaliza com Ponferrada em relação ao seu património artístico. O abrigo fica ao lado da Igreja românica de Santiago do sec.XII. Com apenas uma nave, destaca-se  a Norte a Porta do Perdão, considerada a jóia desta igreja. Chama-se a Porta do Perdão, porque o peregrino que não podia continuar o caminho até Santiago, devido a doença, ou moribundo, ao passar por baixo desta porta, tinha as mesmas indulgências como se tivesse passado a porta da catedral de Santiago, que só abre em ano de Jubileu ou ano Santo. Vista por fora, a porta tem um arco românico apontando um pouco ao Gótico. Os capiteis têm motivos dos três reis magos a cavalo, a crucificação, a anunciação, os demais capiteis têm motivos florais.


A visita à igreja, foi guiada por uma simpática senhora que explicou todos os pormenores, fixando-se na cruz com o Cristo, atrás do altar. Esta peça feita numa única peça de madeira representava um Cristo com um olhar de tristeza e dor total.




Ao lado da igreja fica o albergue que era um antigo hospital de peregrinos (Ave Fenix), e que permanece quase o mesmo desde a Idade Média. Visitámos a Plaza Mayor e voltei a encontrar a família de Fran, que nos informou que a farmácia tinha curado os pés de Trini... foi música para os meus ouvidos…entrei na farmácia e falei com o Andrés, que me tratou dos pés e me aconselhou uns pensos que ele próprio desenvolveu ao longo de 4 anos, com as informações que foi recolhendo dos peregrinos.



19 de Agosto 


Villafranca del Bierzo - Las Herrerias (19 km)


” Que a luz das estrelas guie a tua caminhada


Albergue de Villafranca del Bierzo - Aspecto dos dormitórios - Villafranca del Bierzo pelas 6h30

Saimos de Villafranca  pelas 7 horas. Na entrada do abrigo, só agora reparei numa Inscrição contendo uma mensagem aos peregrinos” Que a luz das estrelas guie a tua caminhada” …os meus pés continuam uma lastima, caminhei quase 1 km  e parei …não consigo andar mais, tenho os pés todos ligados á frente com pensos. Edurne continua, mas Marivi fica comigo, á espera de apoio. Ainda é noite, Leonor chega para irmos ao hospital de Pedrafita, que fica a cerca de 20 km a Norte. Mariví continua até O Cebreiro. A subida é íngreme, no caminho encontrámos um casal a pedir boleia para também ir ao hospital, a rapariga está muito mal…tem os músculos todos doridos, já vomitou e mal consegue falar. Passamos pelo Inglês Bob, sempre bem disposto, com o seu humor inimitável… no Hospital o medico disse-me que se continuar vou sentir muitas dores, tenho a perna inchada devido a uma tendinite e os dedos todos ligados, fez referência ao bom trabalho que fez Marivi. Deu-me um analgésico…de seguida fomos para o próximo abrigo que fica em Las Herrerias.




Um local paradisíaco…sem palavras para o descrever, só contemplando esta obra de Deus, é tudo tão bonito. Este albergue pertence a uma catalã chamada Miriam e que ao fazer o Caminho conheceu um americano de Chicago, apaixonaram-se e desde há 2 anos vivem neste paraíso, ele faz artesanato (brincos, pulseiras, colares etc) ela organiza o albergue.

Estou sentado num banco de pedra contemplando uma igreja Barroca - neoclássica do Século XVII, na baixa umas vacas pastam e sobre um pequeno rio passa uma ponte romana. Eu já não saía daqui… uma paisagem totalmente bucólica…vejo lá em cima a montanha e fico com a sensação que não consigo subir até ao El Cebreiro, os antigos caminheiros dizem que é a etapa mais difícil, é puro alpinismo.
È uma da tarde, só agora chegam Marivi e Edurne. Que grandes Chicas…nunca tinha visto tanta força de vontade, é preciso referir que Marivi tem dores fortes na rótula e Edurne tem uma tendinite como eu…mesmo assim não desistem.

A primeira coisa que dizem é referente ao caminho…”é maravilhoso, caminhamos sempre ao lado das árvores, junto ao rio… a sensação de ver os raios de sol passando através das arvores …”

São 6 horas da tarde, chegam ao albergue duas alemães, de Munique e de Berlim, dois belgas de Antuérpia, partiram de Saint Jean de Pied de Port há 19 dias.  Finalmente chega a família de Fran, cujo destino era Faba, mas as meninas não aguentaram e dormem esta noite aqui. Se conseguir chegar lá acima, no O Cebreiro, penso visitar uma capela pré românica (capela de Santa Maria La Real).



Céline em Las Herrerias, contando o caminho

Já estávamos a preparar o jantar, quando chega Céline, uma jornalista francesa de 25 anos, que partiu de Paris há seis semanas. Acaba de fazer 44 km e ainda quer continuar mais 4km até Faba. Valente…



20 de Agosto 


Las Herrerias - Alto do Poio (14 kms)


O Caminho é a Meta

Partiram das Las Herrarias em direcção ao Cebreiro.  Resolvi ir novamente ao médico…mais analgésicos e fui com Leonor esperar as valentes raparigas ao Cebreiro.

Enquanto esperamos visitamos a Igreja pré românica, uma pallosa(castro) que é uma habitação pré romana, que serve ao mesmo tempo de habitação e ao lado corte para os animais. Muito interessante a reconstituição duma castrejo… Marivi e Edurne chegaram muito cansadas, diria exaustas de cansaço. A dificuldade da subida dos últimos 8 km até O Cebreiro confirmou-se. Marivi disse-me que houve momentos que se sentiu perdida no meio da montanha, mas ao mesmo tempo sentia que gostaria imenso de partilhar aqueles momentos comigo, a subida tocou-a de uma forma magica…Soubemos que o abrigo do Hospital de la Condesa está completo, temos que Subir ao albergue do Alto do Poio. Já instalados no abrigo, disse a Marivi que esperava que os meus pés estivessem em condições para a manhã, para a etapa até Triacastela. Uma etapa de 14 km, que é praticamente tudo a descer. Estamos na esplanada do albergue, que fica situado na parte mais alta da montanha, daí o nome Alto do Poio. Fica situado a 1400 metros de altitude.

Faltam-nos 152 km para chegar a Santiago de Compostela.



21 de Agosto 


Alto do Poio (1355 metros) - Triacastela


(13 kms = 3 horas de caminhada)
não sou eu que faço o Caminho, é o Caminho que me faz a mim


Vista do Alto do Poio - Estátua do Peregrino

Saímos do Albergue às 8 horas, Marivi tratou novamente os meus pés. Estão todos ligados no fundo. Eu sou capaz de continuar. Não faz frio, o solo é argiloso, com pedras soltas, algumas descidas e subidas íngremes. Encontramos um italiano que nos ofereceu chá quente, disse que é sempre melhor para o corpo, bebermos líquidos quentes ao invés de frio.

A família de Fran está bem, passou por nós, na aldeia de O Biduedo, uma povoação que está a 1200 metros de altitude. A paisagem é muito bonita, caminhamos através de túneis naturais construídos pelas árvores. Em Filloval, começamos a descer a montanha.

Entrámos numa pequena aldeia de pastores de vacas,  uma senhora tinha feito uma espécie de uma tarte muito fina de bolo de farinha e estava serenamente a oferecer a sua especialidade aos caminhantes.

Pelo caminho comemos amoras e framboesas que alguém colocou no quintal, apresentado em bandejas de 1 euro cada.



Descendo a montanha - Passando em Filloval  - Caminho de Filloval

O dinheiro teve que ser colocado numa caixa, é impressionante a confiança que têm nos caminhantes para as coisas serem deixadas sem qualquer vigilância.

Aqui estamos verdadeiramente unidos com a natureza. Entramos na Galiza, que é composta por quatro províncias: A Corunha, Lugo, Ourense e Pontevedra. Agora estamos passando pela província de Lugo. Faltam-nos apenas 131 kms, para chegar a Santiago de Compostela.

Este sitio é um paraíso, rodeado pelos agricultores, com vacas da famosa "Rubia Gallega" apreciada pela sua carne saborosa.




As famosas vacas “Rubia Gallega” - Vista sobre a Galiza. - 131 kms,para chegar a Santiago de Compostela        

Estava a conversar com Marivi a respeito das feridas dos pés, quando entra na hospedaria uma senhora que aparenta ter cerca de 60 anos e diz que hoje já andou 36 kms, desde La Portela de Valcarce.

Em frente à pousada, um rio flui serenamente, estamos observando a natureza duma varanda.
Lembro-me de um peregrino me dizer, que ao longo do Caminho devia contar com sol, chuva, frio e cansado, ele tinha feito duas peregrinações a Santiago  e referia que peregrinar era sair de um lugar e dirigir-se ao próximo refugio, isto era, para ele, peregrinar, eu concordo.



Mosteiro de Samos - Edurne e Marivi com a família de Fran

Depois do almoço fomos visitar o Mosteiro de Samos. Está considerado como um dos mais antigos do Ocidente, já que remonta as suas origens ao século VI. A primeira comunidade monástica, seguia o ideal ascético dos monges coptas do deserto. Nos fins do século VIII, Samos educa o futuro rei Afonso II, o casto, impulsor da difusão do sepulcro de Santiago, que foi descoberto no seu reinado. Com a adopção da regra de São Bento em 960, o mosteiro ocupa-se da hospitalidade dos peregrinos.

22 de Agosto
Triacastela – Sarria (21km)

Vista do albergue de Triacastela á noite e durante o dia.

Saimos pelas 7 horas, ainda estava noite. Mais á frente outros peregrinos estavam confusos para que lado deviam seguir…temos que seguir a estrada para Samos e saímos na direcção de Sanxil. A neblina ainda estava assente. A imagem que tinha deste lugar, é o do paraíso na terra, ou do jardim do éden.
Segui sozinho, a mochila  pesava uma tonelada.

A primeira subida é muito acentuada, subimos aos 900 metros de altitude, deixa-nos sem fôlego, no alto temos uma fonte de água fria, depois descemos uma escarpa com pedra solta…mas o que faz desta etapa uma experiencia única é a vista deslumbrante que temos do vale. Há muitas fontes, vacas,  prados, vacas e caminhos …




Lugar de Montan, onde me perdi e a vista de Montan do alto da serra.

Cheguei ao Alto do Riocabo, apanhei maçãs suculentas e amoras, depois comi frutos secos quando descia para Montán, que fica num vale de cortar a respiração, ao contemplarmos tal beleza. Segui um caminho em frente, não vi as setas amarelas e andei perdido durante uns kilometros.  Chegamos a Calvor e paramos num bar para comermos um bocadilho de tortillas  e um chocolate quente, aqui faz frio, esta quase a chover…

Finalmente chegamos a Sarria e como todos os albergues estão cheios vamos dormir ao ar livre, temos duas tendas.

Dia 23 de Agosto
Sarria – Mercadoiro ( 22 km)

A saída de Sarria foi tranquila. Pelas 6h30 tratei das feridas, ou melhor a querida Marivi tratou das minhas feridas. Tenho os pés numa lastima…já são muitos quilómetros feitos. Não me arrependo de nada, teria feito tudo, de uma forma idêntica. Estou sem adesivos, pensos, gaze e betadine. Na saída de Sarria reforço a farmácia.
Mais abaixo passo o Rio Sarria, que bonito… visito o Convento de la Merced. Um dos lugares simbólicos do passado medieval de Sarria. Hoje em dia este convento pertence aos padres mercedários, foi fundado nos princípios do século XIII como hospital de peregrinos por dois religiosos italianos. No interior observamos um magnífico claustro e uma bonita igreja com uma mistura de vários estilos construtivos do sec XV ao XVIII. Passo um ribeiro pela ponte romana, mais adiante atravesso a linha férrea e depois vem a parte da subida íngreme no meio dum túnel de árvores.

Há já três dias que estou com uma tendinite junto ao perónio da perna esquerda, está muito inchada, estou a tomar analgésicos…só assim consigo caminhar.



O vale ás 6h30 da manhã

Está a nascer o sol, a paisagem lembra uma pintura surrealista…
São já 9h30, caminho há mais de duas horas. Depois da subida encho o cantil e sinto que as pernas não querem andar…bem…



San Xil pelas 7 horas da manhã - os meus pés… - a subida…

Estou em Vilei, entro numa área de descanso…um pouco para turistas, com musica Celta, maquinas de moedas para bebidas. Aconteceu aqui uma situação muito, diria, surreal. Estava a mudar de meias, e como é natural num caminheiro, os pés são os elementos mais danificados do corpo. Chegaram de repente vários caminheiros que eu chamo de touregrinos, com máquinas fotográficas a tiracolo e ao observarem os meus pés pegam nas suas maquinas e eu levanto o olhar e deparo-me com cinco touregrinos a dizer “probrecito” enquanto disparam as suas reflex. Falta referir que, nesta altura da caminhada, eu estou com barba e a roupa não está passada nem muito limpa.

Encontro as catalãs que estão cansadas e uma delas acaba de vir do hospital porque tem o joelho todo ligado.
Faltam 108 quilómetros para entrar em Santiago de Compostela.



A Brea

Cheguei ao alto de A Brea a quase 700 m de altitude. Faz um pouco de frio e vento, começa a chover, paro para colocar a capa da mochila e o meu impermeável.

Chegamos ao abrigo de Mercadoiro pelas 2 horas, é um lugar muito bonito, limpo e tem uma vista fantástica.

Há já muitos dias que estamos na montanha, zona rural de agricultura, pastoreio e vacas…muitas vacas.

São 8h, estamos a comer uma sandes de vegetais e a beber uma cerveja. Está a chover torrencialmente.
Apareceu-me uma bolha sobre uma bolha, estranho…


O Abrigo Celta de Mercadoiro

São 9h, estamos a ouvir música celta, enquanto, lá fora, cai um a chuva diluviana. Estamos retidos aqui no café, pois se saíssemos agora, ficaríamos todos ensopados.

O café está cheio de peregrinos que comem as suas sandes de vegetais e bebem sidra. Uma das formas de tomar um café em Espanha é com gelo, delicioso.

Há já dez dias que não vejo televisão, nem leio jornais. Nos albergues não há televisão. Não faço ideia como está o mundo, espero que melhor do que quando o deixei.

24 de Agosto 
de Mercadoiro a Portomarín




Portomarin e o rio MinhoMariví e Edurne, continuaram. - Ventas de Narón

Depois de caminhar até Portomarin , fiquei com Leonor a descansar. Mariví e Edurne, continuaram. O caminho começa com subidas e descidas bastante pronunciadas. A paisagem começa a mudar para extensos bosques de pinheiros, castanheiros e eucaliptos. Passamos por um campo de girassóis, com todas as flores olhando o sol…. Chegaram a Ventas de Narón, para dormir e como não havia sitio para ficar, abriram-se as tendas atrás do albergue.



Arredores de Portomarin - Caminho para Ventas de Narón


25 de Agosto
Ventas de Narón – Casanova



Novamente 7h00 da manhã e começa a caminhada… muitos quilómetros bastante suaves. Em A Brea estavam a mãe e o filho da Eslováquia, muito simpáticos, sempre sorrindo.

Seguiram até Palas de Rei, voltaram a encontrar a mãe e filho eslovacos. A mãe estava com muitas dores nas costas. Mariví oferece-se para lhe dar uma massagem, ao que ela fica muito agradecida

Encontraram um cavalo lindíssimo, que estava num cercado. Marivi chamou-o com um assobio e ele veio, docilmente, para ser acariciado. Nisto começou uma descida que era tão estreita, que só se podia por um pé de cada vez.

De Pontecampaña a Casanova, foi tudo a subir, por um caminho muito difícil, todo rodeado de arvoredo de eucaliptos e Castanheiros…este sitio tem algo de magico, com as sombras iluminadas pelos raios de sol que entravam entre as ramas e com as raízes saindo do solo, como que procura da luz, num contorno magico como num conto da fadas.

O albergue era só para 20 pessoas, muito pequeno. Mariví e Edurne conversaram muito tempo com dois espanhóis de Valladolid. Um deles tinha uma lesão nas costas que lhe doía muito. Mais uma vez Mariví se ofereceu para lhe fazer uma boa massagem. O outro espanhol, de Madrid, o César, também de 37 anos, um tipo muito simpático e com um olhar muito sincero, que já fez o Caminho desde Roncesvalles.

Quando estavam descansando á porta do albergue, voltaram a ver passar a mãe e filho eslovacos, que seguiam o caminho até Melide.

26 de Agosto
de Casanova a Ribadiso da Baixo  (26 km)

Iniciei o Caminho em Boente, situado cerca de Arzúa, Na igreja, donde carimbamos a Credencial, falámos com dois peregrinos que vão a cavalo. Deixaram-nos acariciar os cavalos que eram majestosos, possuindo uma garupa muito alta.


Em Boente com peregrinos a cavalo. - Guarda Civil… - …a caminho de Arzúa.

Passamos Castaneda e começámos a subir ligeiramente. Estamos novamente rodeados de eucaliptos, castanheiros e pinheiros, o aroma dos eucaliptos quase que nos embriaga por ser tão intenso e penetrante… mas ao mesmo tempo agradável.

Todo o caminho está rodeado por arbustos silvestres com amoras. Faltam 3 kilómetros para Arzúa, deparámo-nos com o belíssimo albergue de Ribadiso de Baixo, que tem um encanto especial e decidimos imediatamente passar aqui a noite.



Entrando em Ribadiso de Baixo - Descobrindo o albergue. - Esperando a abertura das portas.

A primeira coisa que nos desperta a atenção, é na escadaria que desce até ao rio Isso, com as suas águas cristalinas e frias, convidando o peregrino a descalçar-se e aliviar a sua dor nelas. Atravessamos a ponte medieval que dá acesso a um antigo hospital de Ribadiso, o ultimo espaço histórico que permaneceu aberto no Caminho Francês ao serviço do peregrino.



Os dormitórios de Ribadiso - A sala para refeições - A saída pela manhã.

O edifício foi restaurado e recuperado, como albergue, em 1953, formando um conjunto de incrível beleza.
O peregrino sente, quando chega a este local, uma calma e uma paz, que tranquilizam o espírito e serenam a alma.


“Peregrinar é um acto de fé. Os Caminhos de Santiago são percursos percorridos pelos peregrinos que afluem a Santiago de Compostela desde o século IX. São chamados Peregrinos, que deriva do latim "Per Agros", todo "aquele que atravessa os campos". Tem como símbolo uma concha, que normalmente é de vieira, designada localmente como "venera", e é um costume ancestral quando os povos peregrinavam a Finisterra”

27 de Agosto
Ribadiso de Baixo a Monto do Gozo (38 km)

Toda a noite choveu. Como todos os albergues começam a estar cheios, é necessário  sairmos muito cedo para o caminho. Ainda não eram 6 horas quando saí para a nova etapa, combinei encontrar-me com Edurne e Mariví na plaza  Galicia em Arzúa.

Vou caminhando com a ajuda da lanterna, acompanhado de um casal belga. Devido a um erro de comunicação, desencontrei-me com elas e fiquei á sua espera, mais acima, a 5km, em Calzada.

Um café em Calzada - Ponto de encontro em A Brea - Peregrinos a Cavalo

 Em Boavista, a cerca de 9 km de Arzúa, passaram por nós imensos peregrinos a cavalo, vinham em peregrinação do Norte, porque é aqui que convergem os dois caminhos, o do Norte com o caminho francês. O encontro é em A Brea, a 13 km de Arzúa. Em O Xen estavam parados mais 15 cavaleiros.

O Caminho  é rodeado de eucaliptos, pinheiros, que formam um túnel que liberta um aroma agradável, que nos persegue todo o caminho. Almoçámos em Almenal, já caminhámos há 8 horas, percorremos 27 km, ainda nos falta fazer 11 km para chegar ao Monte do Gozo.

Vamos ficar aí a dormir.

A subida para o Monte do Gozo foi difícil. Os primeiros 30 km foram relativamente fáceis, mas quando faltam 11 km, começa a subida para o Monte, que nos deixa exaustos.



Subida ao Monte do Gozo - Monte do Gozo - Vista sobre Santiago

As expectativas da chagada ao Monte do Gozo eram altas, mas não corresponderam á ideia que tínhamos, porque encontrámos um lugar impessoal e muito explorado turisticamente.

Dormimos no Parque de São Marcos. Estávamos a jantar, quando chegaram peregrinos a cavalo. Pediram-nos para deixarem os cavalos num local perto das nossas tendas, claro que não há problema…os cavalos ficaram á solta e durante a noite acordámos com o ruído dos cascos. Não dormimos nada bem, passaram a noite a passearem ao lado das tendas.

Quando saímos da tenda, sentimos um odor estranho e ao ligar a lanterna, verificamos que á volta das tendas estavam dejectos de cavalo.



Monte do Gozo - Caminho para Santiago

28 de Agosto
Monte do Gozo a Santiago de Compostela (5km)




Descida do Monte para Santiago. - Chegada a Santiago de Compostela. - Entrada na Praça do Obradoiro.

Saímos do Parque para a ultima etapa. Faltam 5 km para terminar a nossa caminhada.

O caminhar torna-se sereno, mas ao mesmo tempo estranho, talvez pelo receio de terminar e não saber o que fazer depois.

Depois de caminharmos cerca de uma hora, finalmente vemos Santiago de Compostela.

A este lugar vêm os povos bárbaros e todos os que habitam nos climas do norte, cumprindo seus votos de acção de graças para com o Senhor e levando o premio dos louvores
In Códice Calixtino

Entrámos na praça frente à Catedral. A chegada é indescritível,  imensos peregrinos, prostrados no chão, rezando, chorando, agradecendo pela chegada…uma visão muito forte, que jamais esquecerei.
O Obradoiro é o fim, mas ao mesmo tempo, o começo de uma nova vida, que se define pelo inicio e pelo fim da caminhada.


Praça do Obradoiro - Ruas desertas - Esperando para receber a Compostela

São oito horas, a Catedral está encerrada, as ruas ainda estão desertas, somos dos primeiros a chegar.
Dirigimo-nos para a fila da Compostela. O escritório só abre ás nove horas. Enquanto aguardamos, vemos vários companheiros de caminhada. Um sentimento de forte união, é o que define estes encontros, sofremos todos as mesmas dificuldades.



Catedral de Santiago de Compostela  e  interior da Catedral - vista de uma torre da Catedral

Chegar a Santiago de Compostela como peregrino, é uma experiencia inigualável, indescritível  e creio que por muitas viagens que fiz à volta do mundo, nenhuma se pode comparar a esta.


Rua de Santiago - São Tiago